Quando propósitos transformam realidades

sobre o menino
 

Reflexão #16

Não fechem a minha janela

25/set./2015
por   Gabi

Quando a gente sonha com algo, sempre parece muito distante o dia em que poderemos realizá-lo. O dia depois da realização, então… nem se fale.

Talvez tenha sido por isso que eu ainda tenho a sensação de que esse último ano foi um grande sonho, do qual eu acordei meio no susto, ao chegar no aeroporto com pessoas amadas nos esperando, gritando e vestidas com a camiseta do Think Twice Brasil (que eles mesmos prepararam hehe).

De qual país você mais gostou? Qual foi o maior perrengue? O momento mais tenso? O mais emocionante? O que vão fazer agora? Vão continuar no Brasil?

Essas foram as perguntas mais comuns e que eu confesso ter respondido cada hora de um jeito. Inclusive, tenho a leve impressão de que será assim pra sempre… as lembranças vão surgindo e quando me veem à cabeça, dependendo do contexto e da situação, me trazem novas perspectivas e reflexões.

A primeira noite de volta foi curiosa. Voltei pra casa da minha mãe e o Fe seguiu com os pais dele. Dormi esticada na minha cama de lençóis branquinhos e cheirosos, tomei banho no meu banheiro, que antes eu achava apertado demais pra mim e agora parecia uma extravagância de conforto. Coloquei um pijama limpo e tirei uns minutinhos pra bater um papo com o pessoal que fica no meu oratório. São Francisco, Nossa Senhora, Iemanjá, Buda, Krishina, Ganesh, Sagrado Coração de Jesus e até a Cinderela que ganhou um upgrade por engano (graças à mania de organização da minha mãe).

Agradeci, agradeci, agradeci… mas com a sensação esquisita de que tinha sido tudo tão rápido, que me deixou em dúvida se tinha mesmo acontecido. Afinal, por aqui nada mudou, a não ser pela canonização da Cinderela.

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Os dias foram seguindo e os reencontros também. Gente querida que me fez lembrar um dos motivos do porque o Brasil é o meu lugar.

Mas eu não esperava que mesmo com todo esse amor que me foi entregue, eu teria tantas dificuldades de reconhecer esse meu lugar. Observar que nada mudou é um conforto, mas também uma frustração. Me lembrei de que no post que contei a primeira vez sobre o Empathy Experience, eu escrevi que deixava “tudo guardado em um potinho. Aqueles potinhos de vidro, cheios de lembranças pra gente ficar olhando com carinho e abrir a tampa quando sente saudade.”

Potinho

Só não imaginava que o que eu mais queria era poder ter levado esse potinho, com a tampa aberta, pra permitir que as pessoas que deixei dentro dele vivessem tudo aquilo comigo. Dar a elas a chance de sentir na pele e enxergar com o coração o tanto de lições que aprendi com quem sequer sabe ler ou escrever.

Queria tanto que elas pudessem entender porque eu agora fecho os olhos e agradeço por cada refeição, porque não consigo gastar o resto que sobrou do meu dinheiro em qualquer cafézinho que custe pelo menos R$50,00, nem de passar despercebida pelas famílias novas que estão morando nas ruas perto do Ceasa.

Queria tanto que elas pudessem compreender que dá pra ser mais positivo, mesmo que tudo indique que o dólar pode chegar a R$10,00. Queria conseguir falar mais sobre meditação, sobre compaixão, sobre generosidade e gratidão.

Mas principalmente, queria poder ser mais paciente e humilde com essas pessoas que eu tanto amo. Queria ter a sabedoria necessária pra comprovar que, pelos meus cálculos, o mundo tem muito mais gente do bem, fazendo um trabalho duro que é remunerado mais com amor, do que com dinheiro e ainda assim eles não desistem.

Queria simplesmente poder demonstrar que se decidirmos mudar alguns pequenos hábitos, o Universo parece reconhecer nossa intenção e consegue nos ajudar a seguir nesse caminho de mudança.

Uma sugestão? Tente ficar um dia sem se queixar, sem julgar o próximo, nem falar mal de ninguém. Tente focar no lado bom das coisas e enxergar o melhor das pessoas, por mais difícil que pareça. Pratique a empatia com tudo e com todos. Ao final do dia, reflita sobre as sensações e sentimentos (e se quiser compartilhar, me escreva contando hehe).

Como o Fe contou na Reflexão #15, parece que uma boa parte do mundo está tentando nos desencorajar.

Não tem como não perder a fé na humanidade assistindo programas da tarde e jornalismo policial. Navegar por algum grande portal da internet também chega a dar palpitação. As informações variam de quem beijou quem no Rock in Rio, alta do dólar, Lava Jato e até arrastões na zona sul do Rio. Nesse meio tempo, pode rolar uma boa dose de sensacionalismo, opiniões parciais dos apresentadores e jornalistas, discursos preconceituosos e debates superficiais.

Inclusive, se você que está lendo é um jornalista/comunicador, eu vos suplico: Mostrem o lado bom do Brasil, das pessoas, do mundo. Vocês, e todos os outros milhares de profissionais da área, têm o poder sublime de nos influenciar, nos inspirar, nos tocar e nos mobilizar. Sem contar o poder de colocar no papel a sua impressão sobre o que lhes foi dito ou presenciado. Tentem fazer isso pelo bem. Tentem ouvir mais do que falar – ou escrever. Tentem praticar a empatia e prestar um serviço à sociedade, ao invés de contribuir para aumentar a descrença na vida humana na Terra.

Eu conheço profissionais muito especiais, que inclusive contaram a história do Think Twice Brasil com muita verdade. A vocês, o meu desejo de que voem ainda mais alto e consigam tocar cada vez mais pessoas com o otimismo e os valores firmes que carregam.

Porque histórias de superação, de generosidade, de esperança não dão ibope? Essas histórias existem ao montes e posso lhes assegurar que são muito mais numerosas do que essa enxurrada de desgraças com as quais somos amedrontados a cada instante. Vamos mudar de perspectiva ?

Em um dos desabafos chorosos que tive com minha mãe nessa última semana, eu pedi perdão por ter me tornado um peixe fora d’água. Pedi também que ela pare de assistir aos programas da tarde hehehe. Pedi perdão porque conclui que na minha ânsia de mudar o mundo, eu, pacientemente, devo conseguir mostrar às pessoas à minha volta o porque de eu precisar tanto delas. Não estou falando de dinheiro, de tempo, de doação, de voluntariado. Estou falando de disposição para mudar de vida e isso acontece única e exclusivamente através da vontade de se transformar em alguém melhor pra si e pro próximo.

Ainda nessa conversa, na tentativa de explicar à minha mãe toda a minha angústia desses últimos dias, eu contei a ela como eu me sentia: Mãe, antes eu vivia em um quarto alto e completamente escuro, tateando tudo ao meu redor e também a mim mesma, na tentativa de reconhecer quem eu era e aonde eu estava. De repente, depois de muito tatear, eu encontrei uma janela e com bastante dificuldade eu consegui abri-la. Com a janela aberta e a luz do sol clareando tudo, agora eu enxergava a mim mesma, o quarto e tudo o que os meus olhos alcançavam lá de cima. Confesso que essa luz, muito mais do que sentida com os olhos, é vivida com o meu coração.

Um caminho sem volta, mas que me remete à importância de cuidarmos dia após dia dos nossos valores e princípios, sermos humildes para reconhecer até onde podemos ir e corajosos para fazer diferente mesmo que o resto do mundo torça o nariz. Um janela aberta para enxergar o mundo com as suas dificuldades, mas também com as suas maravilhas e, na medida do possível, trabalhar para que essas maravilhas ganhem mais evidência do que as dificuldades. Uma verdadeira inversão de valores e uma mudança de paradigma que nos façam resignificar nossa existência e a do outro.

Enfim, é a minha chance de, pela primeira vez, seguir firme nos meus ideais e na minha vontade incondicional de fazer da minha história algo que transforme a história de muita gente.

  • É tempo de seguir firme acreditando,
  • trabalhando,
  • compartilhando
  • e agradecendo.

É tempo de resistir a um mundo de desesperanças, de preconceitos, de segregação e desvalor.

É tempo de reconhecer que a parte boa da vida quase nunca ganha destaque na TV, a menos que a gente decida enxergar esse lado.

E eu, agora daqui de casa, continuo me descobrindo a cada dia e pedindo a toda a minha tropa de proteção, incluindo a Cinderela, que continue por perto mantendo essa luz no meu caminho. E antes que alguém duvide do que virá pela frente, eu já adianto: Não, não irão fechar a minha janela.

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Gabi
Think Twice Brasil

    7 Comentários:

  1. Gabi, eu acompanhei boa parte da jornada de vocês, lendo as reflexões e me encantando a cada pedaço dessa viagem. Voltei aqui hoje ao receber o e-mail que avisava sobre o novo site e adorei “ouvir” vocês nesse complexo processo pós-viagem :) Ainda mais por encontrar esse post tão lindo, que fala de um conceito muito parecido com o que inspirou o nome do meu blog, Janelas Abertas. Que as suas permaneçam abertas e essa luz ilumine muito mais gente ao redor de vocês! Ah, aproveitando, rola uma entrevista lá pro blog? <3 Um abraço!

  2. Dani disse:

    É Gaby,
    Existem muitas janelas que ainda precisam ser abertas, mas acho que vocês conseguiram abrir uma fresta em algumas delas!
    Sentimos que “nadar contra a maré” é muito difícil, mas se nadarmos todos juntos, facilitamos, não é mesmo? O Nemo mostra bem como isso funciona 😉
    Bjs e abraços ainda com saudades!

  3. Gabriela Melo Csch disse:

    Querida Gabi,
    Confesso que um pouco antes de vocês chegarem o que a gente (nós lá da casa da minha mãe) mais se preocupava era como vocês iriam encarar e enxergar as coisas e pessoas por aqui porque, infelizmente, não vimos e vivemos todas as experiências que vocês nos contaram e postaram. Só vocês sabem tudo o que rolou nesses últimos quase 400 dias. Aqui as coisas permaneceram praticamente iguais e sabíamos que para vocês isso seria um “baque”.
    De qualquer forma, tenha certeza que no fundo vocês tocaram a cada um de nós e definitivamente não somos os mesmos de quando vocês partiram mas a mudança foi muito mais sutil do que com vocês!
    Sobre o que tem de bom no Brasil, comentei com o Fê justamente sobre isso logo depois do último post dele. Ficou parecendo que ele só vê desgraça no nosso país mas depois entendi que na verdade ele só estava se referindo ao que foi dito a ele… E de fato, as pessoas tendem a criticar numa velocidade incrivelmente mais rápida do que quando precisam reconhecer e elogiar… E sem dúvida nós, oo brasileiro, precisa SIM aprender a falar BEM do nosso país e isso não quer dizer fechar os olhos para o que precisa, e com urgência, ser transformado… Mas não somos só coisa ruim!
    PS: CHOREI de rir com o upgrade da Cinderela!!!!!
    Amo vocês e continuo cheia de perguntas a fazer a vocês!!!! :)

    Beijos

  4. Edu Ferrari disse:

    Muito bom ler tudo isso, Gabi. Bem-vinda de volta (muito embora, de uma certa forma, quem saiu daqui não é a mesma pessoa que voltou… ainda bem!). Pra quando se sentir muito peixe fora d’água: “Se você nasceu num mundo em que você não se encaixa, é porque você nasceu para ajudar a criar um novo mundo”. Espero falarmos mais qualquer dia. Fica bem. _||_

  5. Stefani disse:

    Olá,

    Desde que descobri o site de vocês tenho andado mais reflexiva, o que me fez repensar meu projeto de vida. Gostaria de tê-los encontrado antes para poder comentar experiência por experiência, uma a uma. Além de elogios, tenho a dizer que vcs merecem minha gratidão, pois saber que existem pessoas como vcs no mundo me faz crer e manter o animo no meu propósito de tornar a sociedade mais justa, humana e solidária.
    Tenho sonhado com o dia em que poderei realizar uma viagem que me agregue a possibilidade de fazer o bem pelas pessoas.

    Sigam firmes e exultantes. O trabalho de vocês é inspirador e de um valor inestimável.

  6. Mylena disse:

    Você sempre foi e sempre será uma fonte de inspiração. Não deixe ninguém fechar a sua janela. Se precisar, grita! Tem muita gente que vai te ajudar a segurar a janela aberta. Welcome back, eterna chefa querida.

  7. Giovanna disse:

    kkkkkkkkkk e viva a Cinderela!!!!! kkkkkkk ri e chorei com suas palavras Gabi!
    É isso ai, estão de volta e agora terão que praticar a empatia conosco, vão ter que lidar com muito amor e paciência com a nossa consciência que deve ter ampliado (de alguns) mas talvez não na velocidade da de vocês! Vão ter que ver beleza e continuar com o otimismo……vai ser a volta da empatia reversa :)
    Uma vez a consciência expandida ela nunca mais volta a ser o que era, vocês agora são mais responsáveis ainda pelo que viveram e pelos seus ideias. Espero muito que continuem assim!! Sejam a transformação que vocês querem ver nos outros (vai precisar de muita meditação)!!! Pede ajuda pra Cinderela!!! Saudades mil

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