Quando propósitos transformam realidades

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Reflexão #15

Uma semana de volta no Brasil

21/set./2015
por   Felipe

Já faz uma semana que cheguei de volta na minha realidade, no meu país, e naturalmente muita coisa na cabeça.

Depois desses 400 dias conhecendo outros mundos, parece que fiquei mais aberto a ouvir e querer entender tudo. O que não é exatamente bom. Tenho a impressão de que não saber de todos os problemas deixa você mais feliz com a vida. Mas espera, não posso saber a verdade? Acho que devo, mas filtrar o tipo de informação que você vê, ouve e lê dita a forma como você vive o seu dia, mesmo porque é impossível saber de tudo.

Viajando eu estava mais imune ao bombardeio de informações pelo idioma claro, mas essa semana, sendo capaz de entender o que todos falam e o que contam as notícias ficou difícil ficar em paz de espírito.

Não estou dizendo que tudo o que vi no último ano em 110 cidades foram só ações de desenvolvimento social e coisas positivas. Vi muita desigualdade desesperadora e muita gente querendo tirar vantagem, mas São Paulo eu conheço e dói mais ver isso aqui. Durante o último ano em raras situações fiquei incomodado por estar em perigo e, efetivamente, não sofremos violência alguma. Entretanto, o primeiro dia dessa semana que sai de carro sozinho, estava com muito receio, não levei o computador, ficava olhando pros lados o tempo todo e sai muito antes com medo do trânsito. Estranho isso tudo!

Compartilho o que eu tive que ouvir várias vezes e acabou ficando na minha cabeça desde que cheguei:

i. Quais são os problemas no governo, quem é corrupto e onde, quem errou o que, porque estão fazendo um trabalho ruim, que tal o impeachment, especulações de porque o dólar subiu e da derrota do novo plano fiscal;
ii. Um jovem de dezesseis anos matou um amigo na escola com estilete, uma criança caiu da janela do apartamento e que o helicóptero da polícia parou de funcionar no meio de uma grande avenida, bloqueando o trânsito por três horas;
iii. A presidente parou de bicicleta pra acompanhar o socorro de um ciclista acidentado e pessoas ficaram na fila do Rock in Rio por uma semana só pra entrar primeiro;
iv. Quem fez gol em quem, que time está melhor e quais os próximos jogos. – Comecei a dar razão para as centenas de pessoas ao longo da viagem que ouviam que somos do Brasil e só diziam “ah, futebol né”, pois é só isso que funciona aqui.

O que fica é que parece que o Brasil está colapsando, que não tem nada de bom, nada funciona e que a solução para sua felicidade é gostar de futebol, que seu time ganhe e arrumar um ingresso pra ir ao Rock in Rio. E claro, cada um por si.

Quando você pode entender tudo a sua volta, as informações te colocam pra baixo, está tudo ruim e em breve o mundo vai acabar.

Quantas vezes ouvi discussões sobre a solução da corrupção com ideias concretas? Quantas pessoas entendem quando é correto fazer um impeachment e o que aconteceria no dia seguinte da saída da presidente? Quantas campanhas pra você não usar o acostamento, usar sua bicicleta e não ter que pagar R$30 pra comprar uns pãezinhos na padaria? Nenhuma e em uma hora tentando escutar notícias úteis no rádio, tive que acreditar vinte vezes que eu realmente preciso comprar toalhinha umedecida numa drogaria específica porque o preço é o melhor.

Pra escutar uma conferência sobre desenvolvimento urbano e pobreza – que conta sobre planos que melhoraram a vida na favela e reduziram a violência através da educação de jovens – tive que achar o site e ter uma boa conexão de internet pra acompanhar. Ou seja, haja esforço para acessar uma informação relevante. O que precisamos fazer para líderes comunitários serem capa da Veja e inspirar a mudança que precisamos? Talvez falte lobby em tudo, se não existir algum interesse…

Reitero que minha crítica não é acreditarmos que está tudo bem e que vivemos num conto de fadas de uma cidade maravilhosa, – até porque essa é só o Rio de Janeiro (que nem é…) – mas e ai, queremos melhorar algo e falar sobre isso?

O lindo disso tudo é que tenho certeza que todos querem sim melhorar e fico aqui, no Brasil, pra trabalhar nisso como eu puder e mantendo a positividade da esperança! Tudo no seu ritmo mais vai melhorar, é só abrir os olhos.

Ah, futebol eu gosto hein, é só me chamar pra jogar, mas sem camiseta de time e sem cobertura nacional, por favor…

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Felipe
Think Twice Brasil

    8 Comentários:

  1. Renilde disse:

    Boa noite amigos, moro na Europa ha 15 anos, e como a Karina também vivo com a sensaçao que me falta algo. No meu caso nao decidi ficar e nem partir definitivo, depois de muitas lagrimas, angustias e discussoes combinei com meu marido (ele estrangeiro) de viver a maior parte do ano aqui e alguns meses no Brasil. O experimento vai começar no inicio de 2017. Espero que de certo, pois so quem està fora sabe as dores que temos ao estar longe.
    Gostaria de saber de algum de voces ja fez ou faz uma experiencia parecida, se funciona, aceito sugestoes e agradeço.

  2. Karina disse:

    Ola,
    Moro fora do Brasil ha quase 8 anos, fisicamente fora mas meu coração sempre no meu Pais de origem, algo que me culpo e me culpam muito. Gostaria de estar mais aqui, mas não, o coração insiste em voltar, não penso em me desligar tão fácil assim, pelo contrario, me sinto cada dia mais brasileira. Por nada nesse mundo consigo me acostumar a viver fora do meu povo, da minha cultura, da minha lingua e sem mencionar amigos e família.
    Moro em uma cidade maravilhosa aqui no Canada, Whistler, tudo funciona e a natureza é fantástica mas me falta algo… e vai sempre faltar tanto aqui ou no Brasil (rsrs… sou ser humano e encontrar a satisfação é um processo), porem sinto que o que me falta aqui pesa muito, muito mesmo entao decidi voltar para casa – para o Brasil – minha verdadeira casa.
    Sabe o que acho? As pessoas que conheço que veem aqui para Whistler a turismo falam mal do Brasil com tanta força e me dói … me dói principalmente quando pergunto para elas no decorrer da conversa sobre o seu dia a dia, nenhuma faz nada para colaborar para o progresso do nosso Pais (exceto em época de Natal quando resolvem fazer algum tipo de doação), nenhuma dessas pessoas são envolvidas em projetos sociais e praticamente todas (ou 99% delas) são consumistas malucas, valorizam marcas, são hipócritas, vivem bem no Brasil. Pergunto a elas a razão pela qual não largam a vida que teem para morar fora entao… por que não abandonam a tão “sofrida” vida que levam e a resposta é sempre a mesma: (1) Ja tenho um vida formada, apartamento comprado…. (2) viver longe da família seria difícil … (3) acho que não aguentaria o frio … (4) tenho um bom trabalho… OU SEJA, ta bem onde esta, continua reclamando e não faz nada para colaborar.
    Uma vez, assistindo o Globo Reporte, que alias gosto muito, ouvi um mulher dizendo que deixou o conforto do trabalho que tinha, deixou de reclamar pra transformar. Que orgulho!
    E é isso, meus planos de voltar para o Brasil são para Outubro de 2016 e la quero transformar, ajudar, colaborar. Levar minha força, meu otimismo e minha vontade de volta pra casa, ajudar meu povo. Mostrar ao meu filho o Pais lindo que a mãe e o pai dele nasceram.

    Espero que nesse caminho eu possa encontrar pessoas boas, que queiram fazer a diferença!

    Adorei o seu post, conheci hoje o blog de voces. Sensacional!

    • Felipe disse:

      Karina, muita alegria ler seu relato! Precisamos ser parte ativa dessa mobilização e estar cada vez mais próximos pra gerar essa conscientização continua. Sejamos confiantes agora e sempre. Muito obrigao e à disposição, Felipe

  3. Carlos de Assis disse:

    Equanimityyyyyyyyyy….. Vamos que vamos..

  4. Filipe disse:

    Também sinto isso em minhas visitas à terrinha…é muito pessimismo e polaridade, triste imaginar que assim nao conseguiremos dialogar e construir um melhor país! Aqui na Colombia faltam 6 meses para que assinem o tratado de paz com as FARC, isso tem gerado muita discussao, mas nem se compara aos ataques pessoais e pouco embasados que vemos no Brasil. Serao tempos dificeis, mas continuo acreditando! Contem comigo! beijos

  5. Giovanna disse:

    Já passei por algumas crises de “talentos” durante minha vida, a última delas foi relacionada com o local onde colocaria meu talento em ação, a serviço de quem? Enfim, acho que temos mais uma coisa em comum, sei hoje que meu papel é no Brasil, quero ajudar o meu país, acredito no nosso povo, acredito no nosso propósito como nação e quero fazer parte disso :) Vamos juntos?

  6. Vívian disse:

    Felipe, parabéns pelo projeto em primeiro lugar.
    Vocês me inspiram muito.

    Minha vivência e experiência ainda está longe de ser tão completa quanto a de vocês e tudo começou não com um projeto maravilhoso como esse. Era pra ser só um intercâmbio na Europa para aprender inglês e fazer algumas viagens. O inglês tá bom e as viagens foram muitas, mas o contato com tanta cultura me fez abrir os olhos e pensar além.

    Volto para o Brasil no próximo mês e busco um projeto para me agarrar. Não sei como. Não sei onde. Ainda. Só sei que minha alma precisa ajudar nosso povo. Quero impactar nossa sociedade e mostrar que há, SIM!, futuro para o Brasil. E isso depende do governo, da economia e de vários outros fatores… mas depende muito mais de NÓS, BRASILEIROS!

    Quando precisar de apoio, me escreva! Quero levar essa causa com vocês…

    Abraço.

  7. Meus comentários serão simples: parabenizo vocês pela coragem e retidão no decorrer destes meses em que circularam pelo mundo; parabenizo vocês pela transparência e pelo respeito que demonstraram nos seus relatos; parabenizo vocês por estarem de volta e expressarem o propósito de permanecer aqui e ajudar este país tão lindo e tão sofrido pela irresponsabilidade de muitos.
    Sejam felizes, cumpram de coração aberto o que de melhor poderão fazer, e se acharem que posso ajudar, por favor peçam: também estou de coração aberto para ajudar jovens como vocês que acreditam NA VIDA. carinhoso abraço, Simone

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