Quando propósitos transformam realidades

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Experiência #39

Mongólia

09/set./2015
por   Felipe

A Mongólia estava na minha lista de países imperdíveis. É difícil dizer os motivos, mas eu tinha uma referência deles como um povo em paz e bem isolado por ser uma pequena população dispersa em um pedaço de terra entre Rússia e China. Pude notar essa dispersão – ela é detentora de uma das três menores densidades demográficas do mundo – em toda a viagem de trem desde Pequim, onde se via muito pasto aberto e apenas algumas tendas das famílias nômades ao longo da viagem de quinze horas (mais as treze do lado chinês).

Eles sempre foram muito próximos da Rússia e até 1990 o país foi governado por um regime autoritário socialista. Esse teve fim, sem violência, nesse mesmo ano após as revoluções dos jovens mongóis. Seu maior herói até hoje foi Gengis Khan, um imperador do século XIII responsável pela imagem do povo mongol como forte e dominador. Isso porque nessa época a Mongólia chegou a dominar 22% das terras do mundo com aproximadamente 25% da população (fonte: Wikipédia). Impressionante! Só espero que uma única nação não volte a ser tão dona do mundo, é arriscado…

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Pelo o que pude conversar, essa recente abertura de mercado para o glorioso capitalismo trouxe coisas boas e ruins. Do lado positivo: a liberdade começou a valer para todos como indivíduos, então mais empresas, produtos e opções; o povo passou a ver mais transparência dos governantes, pois por mais que ainda sejam muito corruptos, antes eles eram autoritários. Do lado negativo: agora há um desemprego que não havia antes; uma maior desigualdade, pois se vê mais gente mais rica e mais gente mais pobre: e os serviços públicos pioraram um pouco porque o dinheiro livre e potencialmente sujo entrou na jogada. Acho que essas breves mudanças explicam muito a diferença entre esses dois sistemas. Nos dias de hoje pelas ruas deu pra sentir que o mercado de luxo está crescendo, com os carrões importados, lojas exageradas e maquiagem dando show. Uma pena, tomara que resistam.

Do sistema atual, conheci uma lei que admirei muito porque acredito que funcionaria incrivelmente bem para combater o multipartidarismo que dita o interesse de muitos dos políticos no Brasil. Na Mongólia, o presidente eleito é obrigado a abdicar de sua filiação partidária, assim como muitos cargos de confiança do governo federal, estadual e municipal. Tem funcionado bem pelo que pude conversar com o ex-prefeito do município de Dundgovi, uma cidade com pouco mais de quarenta mil habitantes ao sul da capital – contarei mais adiante dessa experiência.

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As ruas de Ulan Bator, a capital, lembram muito a imagem que tenho da Rússia pela televisão, por mais que eu nunca tenha ido pra lá. Sem ter considerado as estações do ano no planejamento, tive muita sorte pela época que fomos, pois estava bem morno e soube que o inverno lá chega a meros quarenta graus negativos! Coitados! Fiquei até com vontade de voltar pra tentar sobreviver junto… Outra estranheza, pra mim, é que por ser bem ao norte do hemisfério, o pôr do sol acontecia só às 9:30 da noite. Ê dia longo!

Sobre a nacionalidade de quem nasce lá vale esclarecer uma piadinha comum, inclusive porque ao mencionar que eu iria pra lá me disseram que “finalmente eu, mongol, encontraria o meu povo”… – O curioso é que eles me pareciam familiar mesmo (não estou brincando). – Esse mau uso da palavra nasceu alguns anos depois de 1958, quando a causa da síndrome de Down foi descoberta. Um médico achou que havia certa semelhança na expressão facial de seus pacientes e indivíduos provenientes da Mongólia e assim passou a usar “mongoloide” como referência. Anos depois, com o pedido da delegação do país, ficou convencionado pela OMS que esse nome seria abolido pra tratar dessa síndrome genética que, diga-se de passagem, merece todo nosso respeito!

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A verdade é que as pessoas que tive a oportunidade de conhecer por lá foram extremamente generosas, gentis e acolhedoras. Nas ruas as pessoas eram menos sorridentes que o normal, ok, mas não acho justo caracterizá-las negativamente por isso, pode ser mais uma questão de “abertura” com desconhecidos e até resquícios do autoritarismo. Pelos muitos papos que tive, aprendi que a cultura é bem individual e enraizada na família e, como consequência, o senso de comunidade não é exatamente desenvolvido. Exemplos disso são que cooperativas ainda não funcionam muito bem lá e os esportes mais tradicionais são arco e flecha, luta greco-romana e corrida de cavalo. Cada um do seu jeito.

Tive o privilégio de ficar no apartamento de dois amigos que conhecemos no Laos e que tinham se mudado pra lá há um mês, a Kathleen Kuracina e o Simon Steen. Obrigado! Assim a experiência já começou com pontos positivos pra cultura, mesmo sendo ela canadense e ele dinamarquês.

Na busca por explorar a realidade tivemos uma enorme ajuda do universo. Durante um almoço em que estávamos cansados por não conseguir encontrar formas não turísticas de ir ao interior, a gentis Tenzin Norbhu e Enkhbolor Gantulga, da mesa ao lado, puxaram papo conosco. – Talvez por notar a cara de frustrados que estávamos… – Ao contar do Think Twice Brasil e do que procurávamos elas prontamente ligaram para um amigo que se colocou a disposição para nos ajudar. Ele, Enkhjargal Sukhbaatar, nos convidou para um café em seguida e lá mesmo entrou em contato com um amigo que poderia nos mostrar a cultura deles. Munguntsoot Tseieuvadnudi e sua esposa, Sainbileg Volodya, foram nossos amigos e guias no três dias seguintes. São nomes complexos para o nosso português e fiz questão de mencioná-los, já que essa corrente do bem que aconteceu em breves duas horas tornou a Mongólia ainda mais inesquecível. Obrigado amigos!

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Com esse maravilhoso casal pudemos conhecer a região de Dundgovi e aprender muito, graças também ao inglês perfeito da Sainbileg que se formou no idioma na faculdade. Só assim conseguimos conversar com todos, porque o inglês não é comum no interior. Muito mais que a pequena pacata cidade, pudemos conhecer os intermináveis campos ao seu redor que beiram o grande deserto de Gobi, um destino turístico do país. Sendo uma região interiorana boa parte de sua população já viveu como nômades, inclusive esses nossos amigos, que nasceram no campo. Eu tinha apenas uma vaga lembrança do que aprendi no colégio desses povos, mas nunca pensei que poderia conhecê-los.

De toda a população mongol estima-se que 30% ainda viva efetivamente como nômade (fonte: Wikipédia). O conceito que conheci lá é um pouco mais moderno do que o formato que os livros antigos contam, principalmente porque a globalização chegou lá. Essas famílias vivem no meio do campo – o que segundo o meu padrão metropolitano quer dizer “no meio do nada” – em média a uma distância de trinta quilômetros entre elas. Eles levam a vida morando em tendas e cuidando de seus animais que são a razão desse estilo de vida por lhes darem sustento. Cada família tem aproximadamente mil animais, sendo os mais comuns, nessa ordem, ovelhas, cabras, cavalos, camelos, vacas e porcos.

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Essa é a principal razão que justifica a distância entre as famílias, já que essa turma toda precisa de muito pasto pra comer. Pra quem não tinha referência de quantidade, incialmente pensei que ter mil animais garantiria uma boa renda, porém aprendi que não é bem assim. Parte do sustento vem da venda do leite e pele, que não tem um alto valor em razão da grande oferta na região. A outra parte vem da venda da carne em si que tem um valor maior, entretanto seu ritmo é mais lento porque poucos animais podem ser abatidos a cada ano, a fim de preservar um bom número. Deu pra ver ao vivo que criar esses animais dá um belo trabalho porque além de muitos, existe o desafio de movê-los continuamente por onde tem pastos novos para alimentá-los e a dificuldade de ter sempre água. Além dessa última não ser de fácil acesso, muitas vezes eles dependem de poço cavados por máquinas por terem que ir cada vez mais fundo.

Por isso são nômades até hoje, eles e os animais dependem desses dois recursos naturais, pasto e água, para sobreviverem. A verdade é que algumas das famílias que visitamos têm até casa de alvenaria, pois se estabeleceram ali por muitos anos e quando têm que se movimentar levam somente a grande tradicional tenda nômade mongol. Outro fator que os obriga a se movimentar é o inverno, como lá o frio pode ser muito intenso, eles dependem da ajuda de um verão brando e úmido para conseguirem passar o inverno bem. Se não, eles têm que encontrar abrigos cobertos. Imagina a dificuldade de liderar mil animais na neve. Admirável!

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Em razão disso, a maior queixa que escutamos foi: a mudança climática. De uns anos pra cá a previsão meteorológica se tornou tão imprevisível que muitos deles sofreram perdas diversas. Fatores como um inverno mais tardio acabou não sendo bom porque os animais precisaram de mais pasto antes de chegar o momento de abate. Isso porque eles aguardam a chegada do inverno forte para encerrar a vida dos animais, pois a temperatura ajuda a conservá-los a céu aberto mesmo. Em razão das condições geográficas a agricultura não é um costume, o que obriga os mongóis a importar frutas, legumes e verduras da Rússia e da China, sendo assim alimentos mais caros.

Mesmo com todos esses desafios, boa parte dessas famílias tem uma renda mínima estável, o que tornou as tecnologias acessíveis a eles, como motocicletas, caminhonetes, baterias, energia solar, televisão, celular, dentre outros. Esse foi o primeiro choque pra mim, pois além da expectativa de ver tudo mais antigo, ficou claro que muito do que o homem desenvolveu pode melhorar a vida das mais diferentes realidades. É indiscutível que esses itens têm seus lados bons e ruins, os bons são mais óbvios pra quem vem da cidade grande, mas e os ruins, você consegue ver algum?

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Tudo bem que eu posso ter umas ideias mais extremas, mas um dos maiores impactos veio exatamente da televisão daquela humilde casa e toda a reflexão que veio junto sobre o poder da INFORMAÇÃO. Logo que chegamos e dissemos que éramos brasileiros, a família disse que conhecia muito de nós em razão da novela Avenida Brasil. Estranhei, mas nem tanto porque já a tínhamos visto em outros países distantes e entre tantas conversas esse assunto se perdeu. Porém, nessa mesma noite antes do jantar na casa nômade no meio de um pasto onde não se via nada além de grama ao olhar os 360 graus do horizonte, tinham deixado a televisão ligada e de repente? Suspense… Uma música conhecida começa e naquele olhar automático para a televisão vejo alguns atores familiares. Sim, novela brasileira numa casa nômade mongol remota.

Foi um impacto gigante, pois além de cortar o meu barato da experiência cultural mongol, vi ali que toda a má educação e propagação maléfica que a novela brasileira promove intencionalmente para sua própria população não têm limite geográfico, nem linguístico… Além de me sentir parte-cúmplice pela nacionalidade, me senti envergonhado por suspeitarem que eu pudesse ser aquele mesmo personagem sem caráter e respeito que é interpretado fazendo crueldades aos outros, por exemplo.

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Ali, foi a maior evidência que temos mesmo que trabalhar para mudar e conscientizar nossos meios de comunicação pela tamanha irresponsabilidade planetária que eles realizam e nós mesmos por um cuidado muito maior na informação que transmitimos a cada palavra, comentário e compartilhamento…

Voltando aos nômades sem televisão. De qualquer forma deu pra notar que eles conseguiram manter boa parte da sua própria tradição, como tomar leite de égua fermentado chamado de Airag e mantido numa bolsa gigante de pele de vaca, cozinhar com pedras quentes, tomar água de poços, usar a moita como banheiro e comer muito da carne que criam. Claro que a Gabi e eu tivemos que passar por esses processos por três dias seguidos por muitas tendas – acho que o estômago está bem calejado, porque passamos bem.

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As crianças nômades também têm acesso à educação pública, porém com essa distância entre famílias, durante a semana elas ficam no dormitório das escolas e só veem a família aos fins de semana ou nas férias. O que talvez seja o maior desafiador desse estilo de vida. Dentre as perguntas que fazíamos foi unânime a resposta de que o sonho dos adultos é que os filhos mudem pra cidade, consigam um trabalho e façam a vida por lá. Isso porque temem o que será dos próximos anos com o clima e não querem ver o futuro de seus filhos comprometidos.

Foi muito emocionante ouvir isso e me lembrar de um dos primeiros aprendizados da viagem, que independentemente de inteligência, nível social e dinheiro todos os pais têm a consciência e o foco na educação e futuro dos filhos. É um instinto humano mesmo.

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Tivemos a oportunidade de participar de cerimônias como jantares com muita cantoria, jogos feitos com os dedos das mãos, marcação do símbolo da família na pele dos jovens cavalos feita à ferro e fogo e até o abate e separação de toda a carne de uma cabra. Foi intenso e deu pra se sentir parte de tudo aquilo por algumas horas. Obrigado a todos que tornaram isso possível!

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De volta a Ulan Bator pudemos conhecer o trabalho incrível que Bill e Irene Manley realizam na organização Mary & Martha Mongolia. É um negócio social que através da compra e venda de produtos artesanais suportam o desenvolvimento de micro e pequenos negócios indígenas na Mongólia. Além de nos terem recebido com extrema gentileza e nos ensinado muito sobre a realidade, foi muito inspirador conhecer um trabalho que expressa uma intenção ética, justa e transparente. Ciente da triste corrupção que ainda existe lá, foi admirável ver que é sempre possível fazer negócios da forma correta, como o fazem. Em outros países vimos a corrupção tão enraizada que era impossível ter uma licença de funcionamento, por exemplo, sem ter que pagar algum extra… É o risco de ter tanta gente seguindo o que o perdido senso comum de hoje dita… Cuidado!

Foi interessante poder entender mais a fundo as práticas conscientes que utilizam como o bônus coletivo, no qual esse salário extra é pago de acordo com o resultado das vendas do grupo todo, e os encontros onde os artesãos conhecem as vendedoras para criar mais empatia entre eles, permitindo assim que elas contem aos clientes sobre a vida das pessoas que se dedicaram para fazer aqueles produtos com as próprias mãos. Baita prática. Eles ainda garantem que as vendedoras tenham um salário pelo menos 50% maior que o salário mínimo oficial que, assim como no Brasil, é muito abaixo do necessário para se sustentar.

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Como acredito que a estratégia da consciência do bem é a solução, eles são uma boa prova disso, com um crescimento de 20 a 30% nos últimos anos e muito seguros que vão crescer ainda mais. Parabéns e muito obrigado!

Bom, isso foi a Mongólia. Comecei com energia lá em cima com tantas gentilezas, vivendo a realidade nômade com seu padrão tão diferente do meu e sentindo aquele gostinho de como a tradição pode ser mais pura e simples pra se viver. Ai a energia foi pra baixo com o medo de como a informação e a televisão podem viajar o mundo sem barreiras colocando em risco nosso senso comum. Ai energia pra cima de novo percebendo que tem gente usando as novidades e tecnologias que criamos de forma justa e necessária para melhorar a sua vida. Mais pra cima ainda foi com a esperança de que somente os negócios genuinamente responsáveis crescerão e mudarão o mundo.

Cada um com sua fórmula secreta, só precisamos de mais magia no ar pra nos proteger das tentações mundanas.

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Felipe
Think Twice Brasil

    1 Comentários:

  1. Leandro Yagome disse:

    Caraca, 80º de diferença com o Brasil. Imagina pra tomar banho, hahaha
    Entendo que sem grandes tecnologias e investimentos seja difícil uma agricultura que suporte frios extremos. Pelo que sei, pastagens e gado são pra solos mais pobres, do contrário renderia mais agricultura. Tudo isso deve inviabilizar o custo.
    Bacana a experiência nativa, gostei de acompanhar.
    Há um movimento intenso no mundo empoderando os artesanatos regionais.

    Obrigado pela experiência Fê e Gabi. Me senti lá com vocês.

    Grande abraço,

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