Quando propósitos transformam realidades

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Experiência #23

Jordânia e Oriente Médio

22/abr./2015
por   Felipe

O último país que conhecemos do Oriente Médio foi a Jordânia e ao partir para a Ásia fiquei resumindo na cabeça quais os grandes aprendizados desses meses nessa região.

Difícil tarefa e queria eu conseguir decodificar tantas as anotações no meu “celular old style” inseparável dessa viagem: meu caderninho de estimação de bolso.

Bom, a Jordânia tem o seu estimado monarca que, ao menos diferente das outras duas monarquias que estivemos. não tem poder absoluto, mas ainda pode mandar muito… Sinto que até o conheci pessoalmente de tantas vezes que tive que olhar pra sua foto em quadros espalhados por todos os lugares. Fica quase naturalmente obrigatório ir com a cara do excelentíssimo Abdullah II.

Depois de passarmos pela terceira monarquia, quero começar pela minha breve opinião sobre esse sistema de governo, agora que a civilização moderna já tem alguns milênios de história registrada. Primeiro, algo que sempre me perguntei e nunca achei a resposta é como surgiu o primeiro rei da história do mundo? Minha hipótese é que foi numa partida de bolinha de gude (pedrinhas redondas na época) em que o perdedor foi morto e o ganhador foi consagrado. Ou alguém que conseguiu convencer a sua própria tribo, por lavagem cerebral, que era um enviado do divino com o dever de comandar a todos.

Em outras palavras, o motivo do surgimento da primeira família real de todas acredito ser algo tão ridículo quanto essas hipóteses. Claro que com a evolução, critérios como força física e capacidade intelectual entraram na disputa, mas demorou. Assim o questionamento seguinte é porque milênios depois nós, os únicos seres racionais, ainda permitimos que um pequeno grupo de pessoas seja considerado superior aos demais bilhões e tenha inúmeros privilégios? Com todo o respeito, eu acredito profundamente ser apenas mais uma evidência da nossa zona de conforto em aceitar o senso comum sem nunca querer saber porque. Covardes, somos assim e temos que aceitar.

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Indiferentemente da sua opinião sobre carma, espírito eterno e vida após a morte, é um fato que um bebê que nasce hoje em uma família sem acesso a educação e saúde que vive no limite da sobrevivência tem muitíssimo menos chances de ter uma vida digna. Ao passo que um bebê que nasce numa família real terá uma vida exagerada e descabidamente luxuosa e confortável por merecimento nenhum. É uma injustiça divina aceita por nós, um futuro duvidoso VS um futuro automaticamente glorioso… Não é nem uma questão de mérito, é uma espécie de nepotismo oficial, porque o filho do rei, o príncipe, tem sua ascensão social garantida, independente de suas aptidões serem comprovadas.

Isso não significa que precisamos de um golpe de estado ou um conflito armado para deportar todos os reis e rainhas e pronto, resolvido. Só precisamos iniciar uma transição para acabar com isso. Mas e se TODOS parássemos de apoiar e aceitar? Como parar de achar demais e compartilhar notícias dos netos da rainha ou parar de ir as ruas idolatrar e comemorar o aniversário dela? Apenas exemplos que podem começar a demonstrar que estamos em novos tempos, a igualdade social que todos dizem achar linda requer uma ação e porque não começar por essa? Fora comodismo!

A desigualdade começa ai e não estamos falando de poucas monarquias. Existem as Absolutas onde o monarca tem total poder, as Constitucionais em que o soberano tem alguns poderes e as Constitucionais quando é apenas uma figura decorativa. Dentre essas, são mais de quarenta hoje, sim 40! Mas porque tanta injustiça se estamos falando da realeza poxa? Acho que justifica apenas lembrar o salário mínimo do país e o custo para manter essas entidades extraordinárias vivas? Aviões, palácios, seguranças e empregados…

Para ajudar, como referência, uma realeza europeia teve mais de 460 empregados e gastou R$6.5 milhões só em comida e bebida em 2013, segundo o The Guardian. – Estou mencionando essa por ter mais informações abertas publicamente. – Dá pra mensurar a injustiça que me refiro.

Sou muito cauteloso pra não fazer qualquer acusação indevida, mas hoje não se escuta progressos que são resultado do trabalho da realeza. Se você sabe de algo concreto, por gentileza compartilhe.

Ai está mais uma evidência de que o poder corrompe. Outro dia escutei uma frase que dizia algo como “para conhecer o verdadeiro Eu de alguém dê o poder em suas mãos e então saberá”. Faz sentido. De forma alguma estou julgando a índole das famílias reais, mas é absolutamente incorreto manter isso hoje com a vergonhosa miséria, injustiça e falta de oportunidades iguais a todos. Imagine o tanto que esses milhões não poderiam resolver. Que tal pensar numa situação em que a majestade a partir de amanhã ficaria com tudo o que “têm” e deixaria de usar o dinheiro público, assim essa verba seria utilizada para fazer as escolas que faltam e acabar com a fome? Parece utópico demais para nossas ambições de hoje.

Bom, se eu desaparecer depois desse post, foi algum príncipe do exército que sumiu comigo… Sei que tem um ai, pois tive que ouvir notícias a respeito diversas vezes e elas ainda vinham com um tom de “que exemplo admirável”…

Pronto, ponto feito. Monarquias em 2015 deveriam ser apenas nos contos de fada.

Voltando aos aprendizados dessa região, também pudemos conhecer um campo de refugiados Palestinos em Amã. Primeiro que a imagem que eu tinha de campo de refugiados não condiz com todos que existem, pois não são necessariamente tendas de lona num campo aberto. Isso depende de há quanto tempo eles foram estabelecidos e de que forma se desenvolveram. O campo de Jabal el-Hussein, o qual visitamos, existe desde 1948 quando Israel tomou umas terras a mais. Ele lembra bairros menos desenvolvidos de São Paulo com muita sujeira, fios pendurados e obras inacabadas, mas ainda assim não é como as nossas favelas.

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Como não conseguimos nenhum contato prévio lá, por mais que tentamos, fomos na cara e na coragem para conhecer as pessoas. Tentamos no escritório da ONU para refugiados no local e nada, numa escola pública e nada, até que ao caminharmos a Gabi fez amizade com meninas de uns doze anos voltando da escola e as acompanhamos até a casa delas. Ao chegar ela chamou a mãe que convidou a Gabi para entrar na casa. Eu não pude entrar, pois só poderia se o homem da casa estivesse presente e me convidasse, o que não aconteceu. Foi um breve tour interno, só não deu pra entender as explicações porque elas não falavam inglês. Apesar de ser uma casa bem simples, a Gabi notou que no quarto tinha uma grande televisão de tela plana e meninas dormiam separadas de meninos. Tristemente no final aconteceu algo frequente, a mãe nos pediu “money”. Demos apenas a fitinha do Think Twice Brasil e fomos embora agradecendo muito!

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Continuando a peregrinação, encontramos outras mulheres e meninas conversando e brincando com uns pintinhos na rua. Uma menina de uns dezoito anos nos convidou para entrar na casa. Ela falava um pouco mais de inglês. Estavam entre seis meninas e a mãe, todas rindo e simpáticas, dessa vez eu pude entrar porque a mãe era mais despojada. Isssssa! Em questão de minutos, sério, estávamos sentados na sala tomando café e comendo chocolate que elas nos serviram. – Vale ressaltar que esse convite e generosa hospitalidade foi feito a estranhos andando pela rua sem nem mesmo nos entendermos totalmente. – A casa era extremamente simples, mas agradável.

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Nas tentativas de conversa a mais faladora saca o álbum de casamento e começa a mostrá-lo. Como ela não está com o seu traje cobrindo o corpo todo nas fotos eu não deveria ver. Só olhei uma vez sem saber e ela riu sem graça. Não tivemos muita comunicação clara mas foi um momento maravilhoso e ainda mais incrível pois dessa vez elas não pediram dinheiro nenhum, só trocamos email e um grande abraço. Perfeito para tirar qualquer percepção generalizada de um comportamento oportunista do povo dali. Tem prova mais pura de generosidade e carinho?

Fora isso, a Jordânia tem um povo bastante educado, quase todos fumam (desesperador!) e as construções são todas num tom bege, meio entediante. Diferente do sultanato impecável de Omã, o país não é muito bem cuidado e a buzina é mais usada que o acelerador do carro…

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Saindo do Oriente Médio, no avião, enquanto escrevia esse post, uma situação me impactou. Com as luzes apagadas vi que ao lado da Gabi estava uma menina muçulmana com apenas os olhos descobertos. Ela estava quase invisível em sua roupa preta na escuridão e sua linda filha recém-nascida sorrindo em seu colo. Elas estavam visíveis pelo reflexo do filme que viam de mulheres indianas com poucas roupas dançando com rapazes. Contraste. Eu senti que ela é muito jovem pelo seu olhar, o tamanho das mãos e a voz.

Fiquei me lembrando de todas as mulheres que vi vestidas assim, como em restaurantes com aquele pano preto atrapalhando a comida ser levada à boca e no calor insuportável de Petra onde senhoras caminhavam com as mãos cobertas e uma redinha cobrindo até os olhos. Imagina o calor? Me dava uma angústia gigante por saber que aquilo não era humano e quão sem sentido é permitirmos isso, independente de sexo, idade, país ou religião.

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Naquele momento no voo, acho que fiquei paralisado olhando pra ela por um minuto – disfarçando pra não parecer um maníaco – com um turbilhão de pensamento me batendo e dizendo porque, porque, porque?

Porque será que temos que ser tão diferentes, condicionar o nosso convívio social a tantas regras que nos obrigam a honrar costumes sem nem nos permitirem compreendê-los e decidir por nós? Não existe um livre arbítrio religioso. Somos absolutamente coagidos a seguir o meio onde nascemos.

O que mais me incomoda é que não podemos questionar o que está escrito em livros sagrados cuja linguagem dá muitas diferentes interpretações e que, obviamente não acompanharam a evolução dos tempos, os novos formatos de sociedades e os novos padrões de relacionamento.

Parece que é preciso um milagre divino para que as pessoas, principalmente as mais vividas, se permitam repensar e ver novos horizontes. Não sei como, mas precisamos implorar para abrirem a mente e mostrar que muitas vezes não faz sentido. Regulamentos que ditam uma vida inteira, nos privam de realizar muitos sonhos, pequenos e grandes, além de encontrar o nosso propósito.

Não estou problematizando religiões e crenças, de forma alguma, respeito absolutamente cada um com suas convicções. Apenas argumentando a forma como nos rendemos a ela e nos cegamos. O mais triste é que nas famílias ultraconservadoras, não existe abertura nenhuma para a evolução, parece que estão passando pela vida pra seguir um livro e pronto. E o livre arbítrio? Ah, só se a regra permitir.

Essa crítica não é a respeito do islamismo em si, até porque tivemos experiências maravilhosas com pessoas amorosas nesses países, mas é a respeito da forma como a religião está em nossas vidas. Estou usando exemplos e situações da religião onde estive aprendendo nos últimos meses, mas sabemos que existem casos tão graves como esses em todas. Como a homofobia praticada por vertentes do cristianismo e a resistência em reconhecer a importância do uso de preservativos.

Algo contraditório nisso tudo, é que nos rendemos às inovações que não estavam mencionadas quando as religiões foram criadas. Talvez apenas porque nos deem conforto e facilidades, sem nos importarmos com suas consequências. É aquela estória, se um grupo de pessoas diz que é bom, ok, pode fazer. Como, por exemplo, porque nos permitimos dirigir carros que fazem mal pra saúde e usam um recurso natural que vai acabar? Porque podemos produzir e comer comidas com agrotóxicos nocivos ao corpo? Porque queremos fumar se corrói o pulmão? Porque buscamos ganhar mais dinheiro e ignorar quem não tem nenhum?

Esses hábitos vão contra regras de qualquer religião como respeitar e amar o próximo. Não é que esteja tudo errado, mas nos acostumamos tanto a fazer coisas absurdamente incorretas, que parar pra mudar esses costumes parece dar muito trabalho.

Isso é tão grave, que existem países em que hoje ainda é permitido por lei o estupro matrimonial. O que significa que o marido, resguardado pela lei, pode forçar a esposa a fazer sexo, mesmo que ela não queira. Uma ignorância egoísta, sexista e covarde.

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É, são muitos pensamentos e talvez meu lado questionador seja até incisivo demais, mas continua me parecendo que precisamos mudar muita coisa, desde o começo. Precisamos apenas sair do comodismo de aceitar o que todo mundo está fazendo como sendo o melhor e permitir se escutar. Permitir novas ideias respeitando a opinião dos outros e lembrando que mudanças sempre acontecerão. Me dói muito saber que milhares de pessoas dentro desses costumes estão de mãos atadas, pois o espírito de renovação pode ter um sério castigo e até a morte. De novo, por estar contrariando o que alguém disse a milhares de anos e que todo mundo tem que seguir.

Acho que precisamos abrir o coração, estarmos dispostos a remodelar regras do nosso convívio pelo bem de todos e milagrosamente aceitar que a transformação trará outro ar para o dia a dia. Pessoas mais realizadas e cientes dos seus direitos humanos (não os direitos da constituição blablabla) e dos outros podem florir mais e melhorar a alegria de todos ao seu redor. Esse é um princípio que acredito profundamente ser uma solução para o mundo onde permitimos que cada um se dedique a sociedade de acordo com o seu propósito e suas habilidades. A forma como desenvolvemos a sociedade acabou desaparecendo com essa busca vital.

Por favor, se a sua busca na religião é o sentido para a vida, se estamos em constante evolução as suas respostas não estarão a milhares de anos atrás. Se conheça mais.

Parece teórico demais, mas pra quem acredita que existe uma força superior no universo, seja lá qual for, faz total sentido acreditar que existe uma harmonia prevista dentro de nós. Como uma única religião. Nossa consciência foi se perdendo, se poluindo pelas tentações e se entregando aos frutos maléficos da nossa criatividade individual. Continuamos girando no ciclo de ter e nos distanciando do ser, só mantenho a minha esperança que o ponto de mutação para o bem já chegou para uns e está chegando para todos.

Paremos, pensemos e oremos!

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Felipe
Think Twice Brasil

    1 Comentários:

  1. Francis disse:

    eu acho que essa experiência faz realmente jus ao nome do projeto: “think twice”…

    não sou nenhum expert em religião, então se meu comentário simplório estiver equivocado, me desculpem, mas do meu ponto de vista “leigo”, o propósito das religiões seria algo para “elevar” a pessoa, e não para “aprisioná-la”….

    por mais que esteja “escrito” em algum lugar que se privando ou se reclusando de algo, você esteja “mais próximo de Deus” (ou qualquer divindade), não entendo, pois se Deus é amor, quer ver as pessoas alegres, felizes, e não se fechando….

    sei lá, como disse, apenas meu ponto de vista, mas como é o nome do projeto, “think twice”, acho que tem muita gente precisando “repensar” essas coisas… :)

    aproveito para deixar os parabéns pra vocês…. já li todas experiências e reflexões, e admiro muito o que estão fazendo, o que deixaram pra trás para embarcar nessa jornada, e vossas coragens de embarcar nisso e adentrar países tidos como “extremistas”, “perigosos”, zonas de conflito, etc…

    trabalho excepcional o de vocês, e inspirador!! estou preparando uma viagem de bike pelo brasil e o mundo, e lendo relatos como esses, senti uma vocação para, por onde ir passando, ajudar a comunidade seja como for… não apenas “turistar”… se puder fazer uma diferença no local, ou aprender e replicar, ou mesmo relatar e documentar como vocês estão fazendo, para que outros possam ver e conhecer outras realidades, isso será o máximo!!

    então mais uma vez, obrigado e parabéns pelo que estão fazendo!! 😀

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