Quando propósitos transformam realidades

 
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02/out./2017

Sobre humanidade e vulnerabilidades

por   Gabi

11 graus. Saio de casa com minha nova mochila, uma bota impermeável, segunda pele, casaco de lã e afundada num cachecol fofinho. Pareço um colchonete.

Entro no metrô e começo a suar de calor. Tiro o cachecol, tiro a mochila, tiro o casaco. Está quente demais, não devia ter colocado tanta roupa. Saio do metrô e o vento paralisa minhas bochechas. Tá frio mesmo, ainda bem que eu vim agasalhada.

Enfim, cheguei em Londres.

As ruas são vivas e convidativas ao diverso, ao inesperado. Cabelos coloridos, gente com muita roupa (eu), ônibus vermelhos, cafés e flores, gente com pouca roupa (Felipe), ruas estreitas, passagens quase invisíveis e prédios que guardam muita história.

Caminho até a universidade para a palestra de boas vindas. Centenas de jovens se organizam educadamente e mais pareciam recém saídos de um banho demorado. Frescos, cheirosos, cabelos hidratados e roupas impecáveis. Eu: colchonete.

A insegurança, minha velha companheira, ameaça retornar com a ousadia de quem emite sua opinião sem ter sido consultado. Como você veio parar aqui? Como você foi aceita? Será que vai conseguir acompanhar? E esse inglês brasileiro, como vai esconder o sotaque?

Perguntas sem respostas. Simplesmente porque não precisam de uma.

Mas foi ai que me percebi, uma vez mais, vulnerável. Ao medo de falhar, de decepcionar, de não pertencer, de não dar conta. Ao medo de parecer frágil demais. Nessas horas, a gente se esquece de quem é, do que sonhou e desejou. Se esquece, principalmente, do que já realizou.

Paro, respiro, tiro o casaco. Acho que o coração está se reaquecendo. Sigo até a biblioteca e lá tenho o meu primeiro grande encontro com as minhas mais profundas emoções dessa nova fase. Admiro deslumbrada as prateleiras de sabedoria infinita, a escada caracol que parece ligar a Terra ao Céu e a claridade que entra por todos os vidros como um sinal do caminho pra libertação. Agradeço.

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Biblioteca da London School of Economics and Political Science – LSE

Agradeço e agradeço. Se o Felipe estivesse junto, certamente diria: “Lá vem você falar em privilégios”. Mas não teria como não falar, afinal somos a primeira geração de nossas famílias que recebem o imensurável privilégio de cursar um mestrado internacional em uma universidade histórica. Isso sem contar os fatores culturais, sociais e políticos do nosso país, que nos conduzem a um patamar de outros tantos privilégios incontáveis.

Escolho um dos livros* recomendados pelo professor e me acomodo delicadamente em uma área silenciosa para iniciar a leitura. Logo nas primeiras páginas, me surpreendo com a afirmação de que a vulnerabilidade é uma das premissas dos direitos humanos. Mais adiante, o autor complementa dizendo que experimentamos a felicidade de maneiras diversas, mas a vivência da dor, da humilhação e do sofrimento pode ser percebida de maneira bastante equivalente por muitos de nós.

A vulnerabilidade, portanto, é um dos principais fatores que atravessa nossa condição de seres humanos e nos aproxima em nossas diferenças e possibilidades. A vulnerabilidade é – também – uma porta aberta à prática da empatia, que nos permite acessar a nós – e o outro – com a profundidade que as relações humanas merecem – ou deveriam merecer.

Entendi como um sinal. Um sinal de que não é preciso combater minha vulnerabilidade, pois ela me faz quem eu sou e me relembra – a todo momento – da minha humanidade.

Ao contrário, devo acolhe-la e acomodá-la em seu devido lugar, com o compromisso de que ela sempre vai me aproximar, impulsionar e conduzir.

Nunca me paralisar.

*Vulnerabily and Human Rights, Bryan S. Turner

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    10 Comentários:

  1. cLAUIA SALGADO disse:

    Gabi, mais uma vez encantada com seus relatos!
    Que essa nova fase seja mais uma gigante oportunidade para que a empatia e “e o seu fazer humano” continuem reverberando por todos os lugares em que passar.
    Obrigada por nos “levar junto”!!

  2. Luiza disse:

    Oi Gabi!
    Obrigada pelo texto! Achava que era só comigo, mas esses pensamentos de insegurança e medo já rondam a minha cabeça há algumas semanas, misturado com o sentimento de gratidão pela oportunidade e a pressão (que eu mesma me imponho) de responder com excelencia.
    Obrigada por compartilhar o seu modo de lidar com eles!
    Beijinhos

  3. Marília disse:

    Foda. Você fala com o coração e sinto que fala com parte do meu coração também. Inexplicável. A minha vulnerabilidade se manifesta e tem horas que acho que não vou conseguir controlar. Parece que vou sumir, apagar. Vou tentar o exercício de acomodá-la com humanidade dentro de mim. De me reconhecer e entender.

  4. Beatriz disse:

    Vai pra cima Gabi! Pare com esse pensamento sabotador já! Vc é merecedora disso tudo aeee!

  5. Bia Farias disse:

    Gabiiiiii vc é demais!!!
    Mesmo vulnerável, vc consegue rir de si mesma e fazer rir. Me diverti com seu relato, me senti perto de vc nas ruas geladas e no metrô quente de Londres. Que lindo seu relato e que delicia vc ter lido sobre isso nessa hora. Para te acalmar e confiar no seu caminho. Acolher esse lado que faz toda a diferença na sua jornada de empatia. Beijo em vc e no Fê
    Vc realmente é de uma fofura ímpar, como um colchonete! ❤️

  6. Cynthia Betti disse:

    Gabi minha querida, obrigada por compartilhar esta experiência, que diminuiu um pouco da minha ansiedade com a sua viagem pois me fez sentir muito, mas muito pertinho de você. Sua narrativa me fez viajar para as ruas de Londres e também para dentro de mim mesma, para minhas próprias vulnerabilidades. Obrigada!!

  7. Jennifer disse:

    Que narrativa encantadora. Feliz com as novas histórias e por mais uma vez estar acompanhando tudo de pertinho. Continue escrevendo e levando seu cachecol! Beijos, Jenni.

  8. Leandro disse:

    Gabi, muito legal e me imaginei neste contexto…vc é demais! Me inspiro e tenho todas estas inseguranças e muitas outras…mas não tenho esta capacidade de tirar de letra como vc….um dia chegarei lá…bjs e mande mais notícias e um bjao p Fe

  9. Gabriela disse:

    Permita-se se sentir vulnerável! Mas sempre lembre-se da sua força, do que te levou até onde está, do seu brilho e da sua luz. E keep smiling porque seu sorriso afasta qualquer dificuldade ou barreira! Ansiosa pelos próximos relatos, garota colchonete! :)

  10. Carla disse:

    Amei o texto e o início dessa nova fase! Aproveitem muito esse novo mundo que se abre! Um beijo enorme e já com muita saudade! Carlinha

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